ARTIGO DE OPINIÃO

A coragem de ser inteira em um sistema feito de concreto


Por Luciana Demaman,

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Luciana Demaman. (Foto: Reprodução)

Trabalhar onde o tempo parece estagnar e a tensão é o oxigênio que respiramos não é para qualquer um. Mas fazer isso sendo mulher exige uma engenharia emocional que as academias de polícia não conseguem ensinar por completo. O dia 08 de março costuma ser cercado de flores, mas para nós, policiais penais de Mato Grosso, o que floresce é a resistência cotidiana em meio ao concreto.

 

Sabemos o que enfrentamos. A realidade da nossa profissão é pesada; ela ocupa a mente mesmo depois que tiramos o uniforme e tentamos deixar o barulho das grades do lado de fora de casa. É um trabalho que mexe com o sono, com o silêncio e com a nossa saúde mental. Além da carga inerente ao sistema, ainda existe o desgaste invisível de ter que reafirmar, a cada plantão, que nossa voz tem o mesmo peso e que nossa capacidade técnica não é medida por força física, mas pela firmeza de quem domina o que faz.

 

A resistência, por vezes, tenta sugerir que o ambiente masculino não é o nosso lugar. Mas a verdade é que o sistema penitenciário não funcionaria sem a nossa entrega. Somos capazes de equilibrar o rigor necessário com a inteligência estratégica que o cárcere exige. Nossa competência é prática, é real e não precisa de justificativas.

 

No entanto, essa força não apaga quem somos quando atravessamos os portões de volta para o mundo. Para além dos muros e das muralhas, existem vidas que nos esperam. Somos mães que precisam trocar a postura rígida pelo abraço suave; somos esposas, filhas, amigas. Somos mulheres que cultivam sonhos, hobbies e silêncios que nada têm a ver com o trabalho. Equilibrar o "ser policial" com o "ser mulher" fora da unidade é, talvez, nossa missão mais delicada: desarmar o espírito para conseguir viver a leveza que a vida pessoal exige.

 

Reconhecer nossa força não pode significar ignorar nossas feridas. A ideia de que precisamos ser inabaláveis o tempo todo é um fardo que adoece. Por trás da profissional que executa sua função com excelência, existe uma mulher que também sente o impacto da rotina.

 

Por isso, é importante saber que ninguém precisa caminhar sozinha. Estamos aqui umas pelas outras, formando uma rede que vai muito além das questões burocráticas. Se o peso ficar excessivo, se o emocional cansar ou se o direito for ferido, saiba que existe um lugar de escuta e acolhimento esperando por você. Seja para um suporte jurídico ou para o amparo psicológico que o dia a dia nos rouba, nossa união serve justamente para isso: para ser retaguarda.

 

Somos guerreiras pela profissão que escolhemos, mas somos humanas por natureza. Que possamos seguir com a cabeça erguida, sabendo que, na hora da dificuldade, sempre haverá uma mão estendida para segurar a sua.

*Por Luciana Demaman, Vice-presidente do SINDSPPEN-MT.


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