Nos distantes e largos Brasis não há casa-grande sem senzala; não há Jardins e Morumbi sem Jardim Ângela e São Rafael; não há cortes nobres de bovino sem o osso da fila do açougue. Parecem contrários, mas são adjacentes, vizinhos.
São partes da nossa estrutura e mecanismo social. E manter as coisas como estão, sem jamais mudá-las é bom pra quem está na casa-grande, no Morumbi e provando um corte nobre de carne. O que sempre foi assim continua, continua e continua. O progresso, o desenvolvimento mantêm a desigualdade relativamente estável, como ela está.
O desprezo com os mais pobres é corriqueiro. A afeição é pela busca individualista, pela domesticação das desigualdades socioeconômicas. Está nas “narrativas benignas” sobre a desigualdade. Políticos no poder têm grande apreço por “narrativas otimistas”: querem legitimar seu vazio legado e permanecer no seu ilusório poder.
E não me venha com essa de esquerda e direita, comunismo e fascismo (mais palavras que pouco dizem, algumas palavras não dizem mais); nunca os pobres do Brasil, ouso dizer, do mundo, foram a prioridade de qualquer Governo.
A batalha cotidiana contra a miséria, contra a fome é realizada pelos desprovidos, pelos carentes, por aqueles que têm falta, que não têm ou foram privados do mínimo. O combate ocorre no Brasil real, na vida real, por pessoas reais, que no clima quente suam frio.
Cada dia tem a sua agonia. Em visita à Unidade Básica de Saúde, uma técnica em enfermagem me narrou que uma senhora chegou com uma sacola na mão, com tontura, quase desmaiando. A profissional de saúde disse também que parecia haver um quadro de ansiedade e pânico. Foi receitado remédios, que nem sempre tem no posto. A Sra. disse chorando: “Preciso de dinheiro para os meus remédios. Mas como vou comprar, se nem dinheiro pra comer tenho?”. Sensibilizados, os profissionais da unidade de saúde doaram cestas de alimentos. E a gente foi atrás do medicamento.
“Imagina você ter crianças em casa e não saber como vai levar comida pra casa?”, disse a técnica em enfermagem. Eu que, às vezes, quero entender “a inteira”, perguntei: então ela não estava doente? Não é doença, é fome! Parece alguma doença, mas, na verdade, estava faminta aquela senhora.
E você, Leitor (ra) atento (a), tem fome de quê?
*Emanuel Filartiga é Promotor de Justiça em Mato Grosso
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