O município de Jauru (MT) vai sediar, neste sábado (13), a histórica cerimônia de beatificação do padre italiano Nazareno Lanciotti, assassinado em 2001. Ele será o primeiro beato de Mato Grosso. Na celebração, o túmulo do religioso será elevado e relíquias raras, como fragmentos de ossos e vestes com o sangue do atentado, serão expostas aos fiéis.
Uma das principais curiosidades que cercam a beatificação do Padre Nazareno é que o processo não exigiu a comprovação de um milagre. Ao g1, o Padre Evandro Stefanello, vice-postulador da causa e Vigário Judicial do Tribunal Eclesiástico de Cuiabá, explicou que o direito canônico prevê duas vias para a santidade:
• 📿 A primeira delas é a "fama de santidade", que exige um milagre comprovado;
• ✝️ A segunda é a via do martírio, aplicada ao missionário italiano por ter sido morto por ódio à fé.
"Neste caso, a beatificação não se requer a comprovação de um milagre e basta que seja comprovado que o martírio foi em ódio à fé. E no caso do padre Nazareno Lanciotti, a beatificação dele aconteceu por esta via", destacou o vice-postulador.
Nascido em Roma, na Itália, em 1940, o padre Nazareno Lanciotti chegou a Jauru em 1972 e dedicou quase 30 anos à evangelização e ao trabalho social na região. Fundador da Paróquia Nossa Senhora do Pilar, ficou conhecido por denunciar injustiças como a exploração de crianças e adolescentes, a prostituição e o tráfico de drogas. Em fevereiro de 2001, foi baleado dentro de casa por homens armados e morreu dias depois.
O decreto que validou o martírio passou por um longo processo em Roma, onde um grupo de teólogos e cardeais avaliaram todos os escritos e a história do sacerdote para garantir que não houvesse nenhuma heresia, antes de enviar o documento para a aprovação final do Papa Francisco, na época.
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Diferente de outras cerimônias da Igreja Católica, onde o corpo do futuro beato fica inteiro exposto, os restos mortais de Padre Nazareno vão permanecer resguardados. O público terá acesso a relíquias consideradas de valor inestimável pelo Vaticano, apresentadas em um relicário especial.
"Em novembro do ano passado, aconteceu o processo canônico que chama recognição, que é o reconhecimento do corpo. Nós não teremos os restos mortais em exposição, mas teremos esse pedaço de osso e algumas também pedaço de tecido com o próprio sangue do atentado", explicou o Vigário.
A presença do tecido manchado com o sangue do crime ocorrido em fevereiro de 2001 é apontada como a grande preciosidade histórica e espiritual do processo, algo considerado raro pela Igreja.
"Na questão do padre Nazareno, temos a vantagem que nós temos o sangue do atentado, é o sangue do martírio. Dificilmente nós conseguimos em um mártir ter essa relíquia de fundamental importância", enfatizou Stefanello.
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Diante das dúvidas sobre o destino dos restos mortais do missionário, a igreja confirmou que eles não serão devolvidos à Europa e permanecerão em Jauru, onde ele atuou por 30 anos. Para a solenidade, o túmulo passou por uma modificação física exigida pela liturgia.
Em fevereiro deste ano, os restos mortais foram transferidos para uma nova urna instalada dentro da igreja onde o padre está sepultado.
“A urna está no mesmo lugar onde ele sempre esteve sepultado. A diferença é que agora ela foi elevada e está visível aos fiéis”, explicou o vice-postulador.
Segundo ele, a mudança faz parte de uma tradição presente nos processos de beatificação.
“Sempre que acontece uma beatificação existe o que chamamos de elevatio, que é a elevação do corpo para a veneração dos fiéis,” acrescentou.
Embora o processo já tenha sido aprovado pelo Vaticano, a cerimônia pública é necessária para oficializar o culto ao novo beato.
“Juridicamente, o padre Nazareno já é beato. Porém, para que se possa promover o culto público, ainda é necessária essa celebração que acontecerá em Jauru. É a partir desse momento que ele poderá ser venerado oficialmente como beato”, explicou.
Além das homenagens em Jauru, a cidade italiana de Subiaco, onde padre Nazareno nasceu, também deverá promover celebrações paralelas. Há inclusive conversas sobre futuras homenagens entre os dois municípios.
“Existe um grande carinho da cidade pela memória do padre Nazareno [...] existe a possibilidade de iniciativas simbólicas entre Jauru e Subiaco, como a denominação de ruas ou praças em homenagem às duas cidades”, afirmou.
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A expectativa inicial era de que a celebração fosse presidida pelo cardeal italiano Marcello Semeraro, prefeito do Dicastério para as Causas dos Santos, representandando o Papa Leão XIV. Entretanto, uma mudança de última hora alterou a programação.
Em nota, o bispo da Diocese de São Luiz de Cáceres, Dom Jacy Diniz Rocha, informou que Semeraro adoeceu e cancelou a viagem ao Brasil. Para representá-lo, foi designado o cardeal brasileiro Dom João Braz de Aviz,arcebispo emérito de Brasília.
“Garantimos nossas orações pela saúde do cardeal Semeraro e agradecemos por sua providência em nos enviar o cardeal Dom João Braz de Aviz, que representará o Papa Leão XIV na cerimônia”, destacou o bispo.
Fonte: Giovanna Baiocco, g1 MT
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